
Amor e outros males
-Rubem Braga-
... Você acharia exagerado se eu lhe dissesse que aquele amor era uma cruz que eu carregava o dia inteiro e à qual eu dormia pregado; então serei mais modesto e mais prosaico dizendo que era como um mau jeito no pescoço que de vez em quando doía como bursite, dói de ser ter vontade de saltar pela janela. Pois que velha outra bursite, mas não volte nunca um amor como aquele. Bursite é uma dor burra, que dói, dói mesmo e vai doendo; a dor do amor tem de repente uma doçura, um instante de sonho que mesmo sabendo que não se tem esperança alguma a gente fica sonhando. E a angústia lenta de quem parece que está morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento de ridículo e de impotência, e o desânimo que às vezes invade o corpo e a alma e a alma à vontade de chorar... Se me deseja algo, por favor, me deseje uma boa bursite.
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